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sexta-feira, dezembro 03, 2010


Um caso de Verificacionismo


Se um paciente que, de outro modo, é muito inteligente, resiste a uma sugestão com argumentos não muito inteligentes, então a imperfeição da sua lógica é evidência da existência de um forte motivo para a sua resistência.

Freud

Karl Popper

O propósito desta seção é mostrar, analisando um caso famoso, que o problema da demarcação não é simplesmente um problema de classificar as teorias em científicas e não científicas, mas sim que a solução é urgentemente necessária para podermos realizar uma avaliação crítica das teorias científicas ou das teorias supostamente científicas. Para tal propósito, selecionei a grande obra de Freud, A Interpretação dos Sonhos, por duas razões. A primeira é que o meu intento de analisar seus argumentos tiveram um papel importante no desenvolvimento das minhas concepções sobre a demarcação.1 A Segunda é que, apesar de graves defeitos, alguns dos quais tratarei de expor aqui, ela contém, sem sombra de dúvida, um grande descobrimento. Eu, pelo menos, estou convencido de que existe um mundo inconsciente e de que as análises dos sonhos de Freud em seu livro são fundamentalmente corretas, embora incompletas (como ele mesmo deixa claro) e, necessariamente, de certo modo, enviesadas. Digo "necessariamente" porque, devido ao fato da observação 'pura' jamais ser neutra, ela é necessariamente o resultado de uma interpretação. (As observações sempre são sempre corrigidas, ordenadas, decifradas e avaliadas à luz de nossas teorias. Em parte por essa razão, nossas observações tendem a apoiar nossas teorias. Esse apoio tem pouco ou nenhum valor a menos que adotemos conscientemente uma atitude crítica e busquemos refutações a nossas teorias em lugar de 'verificações'.) O que seja válido mesmo para as observações mais parciais o será também para a interpretação dos sonhos.
O que me proponho a fazer nesta seção é analisar o modo de argumentar de Freud em apoio à sua tese principal na Interpretação dos Sonhos.
O Objetivo principal de Freud nesse livro é o de "demonstrar que, em sua natureza essencial, os sonhos representam satisfações de desejos".2 Freud está consciente, naturalmente, de que há uma objeção óbvia a essa teoria: a existência de pesadelos e sonhos de angústia; no entanto, ele rechaça tal objeção. "De fato, parece" - escreve Freud em uma passagem na qual ele formula o que vai ser o nosso problema central aqui - "que os sonhos de angústia tornam impossível asseverar o propósito geral... segundo o qual os sonhos são satisfações de desejos; realmente, os sonhos de angústia parecem qualificar tal proposição de absurda. Não obstante, não há grande dificuldade em responder a essa objeção".3 O método de respondê-la, explica,4 consiste em mostrar que o que em aparência (em seu "conteúdo manifesto") parece ser um sonho de angústia, na realidade (em seu "conteúdo latente") é a satisfação de um desejo. Isso leva Freud a uma pequena "modificação" de sua tese principal em relação à "natureza essencial dos sonhos", modificação que formula da seguinte forma: "um sonho é a satisfação (mascarada) de um desejo (suprimido ou reprimido)".5
Freud reafirma repetidamente o seu projeto de revelar o conteúdo latente de todo sonho de angústia como satisfação de um desejo. Assim, o projeto se reafirma, por exemplo, na pg. 550 e mais plenamente na 557, onde se lê: " assim, não há dificuldade para ver que os sonhos desagradáveis e os de angústia são uma satisfação de desejos no sentido de nossa teoria, da mesma forma que são os sonhos de clara satisfação".6 Entretanto, Freud jamais leva a cabo o seu projeto: e no final, renuncia por completo a ele, embora sem dizê-lo explicitamente. A evidência em que se baseia esta afirmação é a seguinte:
Freud, bem no início de seu livro (pg. 157) começa a discutir "os muitos freqüentes sonhos que parecem estar em contradição com a minha teoria",7 e logo temos indícios de que o projeto de reduzir os sonhos de angústia a sonhos de satisfação de desejos pode se tornar como um sonho de desejo insatisfeito, porque na pg. 161 nos inteiramos de que nos sonhos de angústia, há que separar a angústia do sonho a cujo conteúdo está apenas "superficialmente ligada" (ver também pg. 162 e a nota do editor a ela). Na pg. 236 nos inteiramos de que a angústia "pode ser psico-neurótica... Onde isso ocorre... nos aproximamos do limite em que falha o propósito dos sonhos de satisfazer os desejos" (O itálico é meu; ver também o final da pg. 487). Assim, no final das contas, há um limite. Na pg. 580, o próprio Freud se mostra consciente de que, até o momento, não faz mais do que evitar a questão de reduzir os sonhos de angústia a sonhos de satisfação de desejos: "Refiro-me, naturalmente, escreve, "à questão do sonho de angústia; e para não confirmar a impressão de que estou tratando de evitar a evidência desta testemunha principal contra a teoria da satisfação de desejos sempre que me encontro frente a ela, darei agora, ao menos, certos indícios de uma explicação do sonho de angústia".8 Mas os indícios são insatisfatórios; pelo menos, não satisfazem Freud. Isso porque, após duas páginas nas quais não aparece nada novo que possa iluminar-nos com relação a nosso problema, mas apenas uma repetição da antiga asserção de que "não há nada contraditório na noção de que um processo físico que produz ansiedade possa ser, não obstante, a satisfação de um desejo", Freud renuncia por completo o seu intento. Finalmente diz-nos, na pg. 582, que todo o assunto dos sonhos de angústia acaba ficando definitivamente "fora do marco psicológico da formação dos sonhos. Se não fosse pelo fato de que nosso tema (a teoria dos sonhos) esteja relacionado com a angústia pelo único fator da liberação do inconsciente durante o sonho, seria possível a mim omitir toda a discussão dos sonhos de angústia e evitar a necessidade de penetrar, nessas páginas, em todas as obscuridades que os rodeiam".9 Em 1911, mas não nas edições posteriores, Freud resumiu sua elaboração, embora apenas implícita e aparentemente sem se dar conta, repudiou o seu programa em uma única sentença: "A angústia nos sonhos, insisto, é um problema de angústia e não um problema dos sonhos".10
Nas quatro páginas seguintes, Freud discute e analisa em parte três sonhos de angústia. O seu propósito não é o de demonstrar que são as realizações de desejos, mas simplesmente apoiar a sua afirmação de que "a angústia neurótica tem uma origem sexual" (pg. 582). Isso, claramente, implica na concepção de que a angústia está vinculada a certos desejos. Mas não justifica, em absoluto, a inferência de que todo sonho de angústia tenha que Ter o caráter de uma satisfação de desejos. (Essa inferência equivocada parece haver sido feita por alguns dos leitores de Freud; mas é preciso advertir que o próprio Freud sugere somente que o primeiro dos três possa haver sido, em parte, a satisfação de um desejo e não sugere nada pelo estilo sobre o segundo e o terceiro dos sonhos.)
A razão pela qual Freud não realiza o seu projeto original de mostrar (por meio de análise detalhada, como as que costuma fazer) que todos os sonhos de angústia são satisfações de desejos é claramente que, no final das contas, ele mesmo não acredita ser possível. Desse modo, o sonho de angústia se converte em um problema de angústia: agora, é mais uma "parte da psicologia das neuroses" (pg. 582) do que propriamente da teoria dos sonhos, quer dizer, da teoria da satisfação dos desejos. Eu serei o último a criticar essa mudança de opinião. Mas a mudança não supõe uma correção consciente com vistas à admissão de um erro. Pelo contrário, nove anos depois dessas passagens terem sido escritas, Freud acrescentou à página 135 - na qual havia introduzido pela primeira vez o seu projeto de reduzir os sonhos de ansiedade a sonhos de satisfação de desejos - uma áspera réplica aos "leitores e críticos deste livro". Ele os acusa de não estarem de acordo com a sua tese de que todos os sonhos, inclusive os de ansiedade, são satisfações de desejos e de não entenderem o seu projeto (abandonado anos antes, embora somente ao final do livro) segundo o qual "os sonhos de angústia, uma vez interpretados, podem resultar ser satisfações de desejos" (pg. 135). "É quase impossível dar crédito à obstinação", escreve Freud, "com a qual os leitores e críticos desse livro fecham os olhos a essa consideração e à fundamental distinção entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente dos sonhos".11
Ora, o que quero apontar não é tanto que, de fato, não foram os leitores e os críticos os obstinados; que os leitores e os críticos não podiam deixar de ver o problema dos sonhos de angústia; e que tinham toda a razão quando ficavam insatisfeitos ao ouvirem dizer primeiro que a redução dos sonhos de angústia a sonhos de satisfação de desejos não apresentava "grande dificuldade" (pg. 135 e 557) para depois, no final, se depararem com o fato (pg. 582) de que esta redução nem sequer fora intentada, mas sim rechaçada por "não ser um problema dos sonhos". O que quero criticar, antes, é a maneira pela qual Freud rechaça as críticas.12 Realmente, estou convencido de que Freud podia Ter melhorado enormemente a sua teoria se a sua atitude com respeito às crítica fosse diferente, sobretudo a sua atitude sobre as "críticas mal informadas", como os psicanalistas gostam de chamá-las. E, não obstante, não resta dúvida de que Freud era muito menos dogmático do que a maioria dos seus seguidores, que se sentiram inclinados a fazer uma religião da nova teoria, dotada de tudo o que era necessário: mártires, hereges, e cismas e que consideravam todo crítico como um inimigo ou ao menos como "mal informado" (quer dizer, que precisa ser analisado).
Essa atitude defensiva se harmoniza com a atitude de buscar verificações, de encontrá-las em abundância por todas as partes, de recusar admitir que certos casos não se encaixam com a teoria (e, ao mesmo tempo, descartá-los por "não serem um problema de sonhos, mas de angústia"; é, de fato, um "estratagema convencionalista" típico, como explico na seção 20 da Lógica da Pesquisa Científica: uma "imunização", como chama Hans Albert).
Um vez que se adota essa atitude, todo o caso concebível se converterá em um exemplo verificador. Em 1919 ilustrei isso com o seguinte exemplo de dois casos radicalmente opostos de conduta. Um homem empurra um menino na água com a intenção de afogá-lo: e outro sacrifica a sua vida com o objetivo de salva o menino. Cada um desses dois exemplos de conduta pode ser explicado facilmente em termos freudianos e, certamente, também em termos adlerianos. Segundo Freud, o primeiro homem sofria de repressão (por exemplo, de algum componente de seu complexo de Édipo) enquanto que o segundo conseguiu sublimá-lo.
(E, como escreveu em uma ocasião o psicanalista Bernfeld, a psicanálise pode predizer que um homem reprimirá ou sublimará, mas não pode dizer qual das duas coisas ele fará.) Segundo Adler, o primeiro homem sofria de sentimentos de inferioridade (produzidos, talvez, pela necessidade de demonstrar a si mesmo que se atrevia a cometer um crime); e o mesmo ocorria ao segundo (cuja necessidade era demonstrar a si mesmo que se atrevia a arriscar a sua vida). Não posso pensar em nenhum exemplo concebível da conduta humana que não possa ser interpretada em termos de qualquer uma das duas teorias e que não possa ser reclamado, por qualquer delas, como uma "verificação".
* (Acrescentado em 1980): Creio que a última sentença do parágrafo anterior seja demasiado forte. Como Bartley me apontou, há certos tipos de conduta que são incompatíveis com a teoria de Freud, quer dizer, que a teoria de Freud os exclui. Assim, a explicação que Freud oferece à paranóia como um caso de homossexualidade reprimida pareceria excluir a possibilidade de homossexualidade ativa em um indivíduo paranóico. Mas isso não forma parte da teoria básica que estava criticando. Além disso, Freud podia dizer de qualquer homossexual ativo aparentemente paranóico que não ele não é realmente paranóico, ou que não está plenamente ativo.
Que alguns casos tão radicalmente opostos tenham sido interpretados, realmente, como verificações, pode ser mostrado detalhadamente analisando o tratamento de Freud a certas objeções à sua teoria. Na Interpretação dos Sonhos, Freud menciona "os sonhos, muito freqüentes, que parecem contradizer a minha teoria pelo fato de que o tema delas é a frustração de um desejo ou a ocorrência de algo que claramente não se deseja" (pg. 157). Um grupo desses "sonhos contrários ao desejo", como ele os chama, pode ser explicado como sonhos que cumprem o desejo do paciente de que a teoria de Freud seja equivocada. (Há outro grupo que não nos preocupa aqui.) Assim, o aparente falseamento resulta ser uma "verificação". Mas o que ocorre com o caso radicalmente oposto de um paciente cujos sonhos se sonham para agradar o analista e para confirmar a sua teoria e não para refutá-la? Esses "sonhos complacentes" (como os chama Freud em algumas ocasiões)13 são também, desde já, verificações; porque são satisfações de desejos da mesma maneira que outros.
Uma atitude mais crítica sobre esses "sonhos complacentes" seria a seguinte: eles ocorrem, como diz o próprio Freud, devidos à sugestão do próprio analista, ou ao fato de que o analista impõe as suas idéias a um paciente sugestionável. Não deveríamos considerar seriamente, então, a possibilidade de que outras "verificações clínicas" - como os analistas gostam de falar -, ou mesmo todas elas, se devam a um mecanismo desse tipo? E a mera possibilidade de tal mecanismo não invalida tais "verificações"?
O próprio Freud está a par desse problema; é interessante ver como ele o trata.14
"Talvez o analista se sobressalte a princípio" - começa Freud - "quando se recorda pela primeira vez dessa possibilidade", isto é, a de influenciar assim um paciente seu.15 Essa é uma observação interessante: "o analista", como Freud, "se sobressalta porque vê que todo o seu edifício de 'verificações clínicas' ameaça desmoronar-se". Entretanto, a angústia do analista se acalma logo que ele se dá conta de que não é ninguém senão o "cético" aquele que traz à baila essa chocante possibilidade: " cético pode dizer que essas coisas aparecem no sonho porque quem sonha sabe que tem de produzi-las, ou que o analista as espera", escreve Freud; e acrescenta: "o próprio analista pensará, com justiça, de modo diferente".16
Sem dúvida ele pensará isso. Mas por que "com justiça"? Freud não dá nenhuma razão. Pelo contrário, quando o cético reaparece três páginas mais adiante e pela última vez - ao que é chamado de simplesmente de "alguém" - nem mesmo Freud "pensa de um modo diferente"; porque aí escreve: "se alguém mantivesse que a maioria dos sonhos que possam ser utilizados em uma análise trata, de fato, de sonhos complacentes que foram produzidos devido à sugestão (por parte do analista), então nada pode ser dito contra essa opinião a partir do ponto de vista da teoria analítica. Nesse caso, somente necessito referir-me às considerações nas minhas conferências introdutórias, onde mostro o prejuízo que resulta da credibilidade dos nossos resultados para uma compreensão da tendência à sugestão em nosso sentido".17 Temo que a referência às Conferências Introdutórias dificilmente ajudará a superar a contradição entre as duas últimas citações. Se alguém pode pensar com sentido crítico, deve permanecer em estado de "sobressalto"; sobretudo se lê com minúcia, na décima Quinta dessas conferências (cf. as seis primeiras linhas do ponto 4), que o sobressalto teve a sua origem no descobrimento de que os pacientes de Freud, Adler e Stekel sonhavam, respectivamente, "principalmente com impulsos sexuais,... de domínio... e de renascimento", adaptando desse modo, como expressa Freud, "o conteúdo dos seus sonhos às teorias favoritas de seus médicos".
Contudo, voltando das Conferências Introdutórias à passagem que me levou a citá-las, o único argumento digno desse nome nessas quatro páginas de desculpas é o argumento do quebra-cabeças de peças irregulares (pgs. 312-3 e 143, respectivamente). O argumento diz que, se o analista consegue recompor a totalidade da intrincada imagem "de modo que o desenho adquira sentido, sem deixar vazios em lugar nenhum... então ele sabe que chegou à solução e que não há outra".
Nada poderia ser mais perigoso do que esse argumento se, como no contexto atual, ele é usado para dissipar as dúvidas do analista com respeito aos resultados da sugestão. Isso porque o analista tinha medo, para começar, precisamente da possibilidade de que o quebra-cabeças pudesse ser composto sob pressão, forçando-se as peças (que são elásticas ou plásticas e não rígidas) para encaixá-las em seu lugar, ou talvez mediante a sugestão inconsciente a um paciente dócil para que ele produza algumas peças novas, feitas especialmente sob medida, para que se encaixem bem nos diversos "buracos".
Assim, sem essa objeção decisiva, o argumento do quebra-cabeças só é aceitável se temos diante de nós uma teoria que possa ser contrastada rigorosamente: as demais teorias sempre podem fazer com que seus quebra-cabeças se encaixem. Consideremos, por exemplo, as interpretações da história em termos de lutas de castas ou lutas de classes: elas parecem "resolver" o quebra-cabeças da história e da política atual. O mesmo pode ser dito da interpretação astrológica da história ou da interpretação que dela faz Homero, em termos das brigas domésticas no Monte Olimpo, ou da interpretação do Antigo Testamento em termos da culpa coletiva, do castigo e da expiação. Cada uma delas consegue "resolver" o seu quebra-cabeças. Mas a sua crença - e a de Freud - "de que não há outra solução" carece de fundamento: todas elas tem êxito. (e também tiveram Adler e Stekel.)
Não quero ser mal interpretado. Penso que a Interpretação dos Sonhos de Freud é um grande sucesso. Contudo, a teoria que ela contém possui um caráter mais parecido com o do atomismo anterior a Demócrito - ou talvez ao da coleção de relatos de Homero sobre o Olimpo - do que o de uma ciência contrastável. Ela mostra certamente que uma teoria metafísica é infinitamente melhor do que a ausência de teorias; e, suponho, é um projeto para uma ciência psicológica, comparável ao atomismo e ao materialismo, ou à teoria eletromagnética da matéria, ou à teoria dos campos de Faraday, que foram, todas elas, projetos para a ciência física. Todavia, é um erro fundamental acreditar que, porque está "sendo verificada" constantemente, ela tem que ser uma ciência baseada na experiência.
O verificacionismo é sempre acompanhado de um dogmatismo perigoso. E não creio que a pergunta "qual é a natureza essencial dos sonhos?" seja uma boa pergunta; mas se forem consideradas, então, as respostas diferentes da teoria de Freud sobre a satisfação dos desejos, elas parecem ser pelo menos tão apropriadas quanto ela. Por exemplo, todo o material de Freud e a sua análise poderiam se encaixar muito bem na seguinte réplica: "todos os sonhos são conseqüência de conflitos: de desejos em conflito ou de conflitos entre os desejos e os obstáculos que ameaçam de frustrá-los e que criam preocupações e problemas".18 Ora, como em um sonho de desejos não podem ser expressos mais do que em forma de uma representação do que se deseja19 - quer dizer, de sua satisfação - uma representação dessa satisfação se encontrará na maioria dos sonhos. No entanto, embora alguns sonhos possam culminar em uma satisfação, o conflito e a frustração estão sempre representados com força (inclusivo nos singelos sonhos da infância e nos sonhos de fome); e se convertem em dominantes em um sonho de angústia, que não tem porque ser um sintoma de neurose de angústia.20
Nada mais longe da minha intenção do que oferecer essa teoria - que, em qualquer caso, seria devida inteiramente a Freud - como alternativa à sua.21 O que quero assinalar é que Freud não discute em lugar algum uma teoria alternativa (tal como a esboçada aqui) que tome nota do simples fato, agora admitido, de que os sonhos de angústia constituem uma refutação da fórmula geral de satisfação de desejos, como sugerem há muito tempo os leitores "obstinados" e os críticos "mal informados". Em lugar algum Freud compara a sua teoria com uma rival promissora, avaliando uma em relação à outra à luz das evidências; e nunca a critica: ele tem a sua teoria e trata de verificá-la; ele a faz se encaixar a elas, na medida do possível - como mostra o exemplo do sonho de angústia - mais além do que ele mesmo pensou ser possível quando publicou pela primeira vez o seu grande livro, A Interpretação dos Sonhos.
Essas foram as razões, mais ou menos, que me levaram, em 1919, a rechaçar as pretensões de freudianos, adlerianos e marxistas com respeito à suposição de que as suas teorias estavam "baseadas na experiência" do mesmo modo que as teorias das outras ciências, a neurologia experimental ou, digamos, a bioquímica. Rechacei as suas pretensões porque vi que as suas teorias não satisfaziam o critério de contrastabilidade ou refutabilidade ou falseabilidade. Hoje, esse critério está sendo amplamente aceito como critério de demarcação; mas as três teorias mencionadas raramente são discutidas em relação a ele. Em contrapartida, seguem sendo discutidas em termos da evidência confirmadora, de "verificações".
Assim é como vi pela primeira vez o problema da demarcação. No contexto atual, não importa se tenho ou não razão com respeito à refutabilidade de algumas dessas três teorias; aqui só servem como meros exemplos, ilustrações. Porque o meu objetivo é mostrar que o meu "problema da demarcação" foi, desde o início, o problema prático de avaliar as teorias e de julgar as suas afirmações. Não era, por certo, um problema de classificá-las ou de distinguir certas disciplinas chamadas "ciência" e "metafísica". Era, melhor dizendo, um problema prático urgente: baseado em quais condições é possível um recurso crítico à experiência, um que dê fruto?
Tradução de Marco Antonio Franciotti
In Popper, K. (1985): Realismo Y el Objetivo de la Ciencia (post scriptum a la lógica de la investigación científica, Madrid: Editorial Tecnos, vol. I, pgs. 203-214.
Notas
  1. Outra teoria que teve um papel similar (ver Philosophy of Science: A Personal Report) foi o marxismo. (ver Búsqueda sin término, seção 8; mas enquanto tratei do marximo com grande detalhe na Sociedade Aberta e seus Inimigos e sobre o historicismo em geral na Miséria do Historicismo, não havia publicado nunca uma análise detalhado do método freudiano de abordar os exemplos falseadores e as sugestões críticas).
  2. Cf. Sigmund Freud, The Interpretation of Dreams (publicada pela primeira vez em 1899), traduzida do inglês e editada por James Strachey, 1954, pg. 127. Ver também pgs. 119 e 121. No que se segue, traduzo diretamente, em um dos lugares, do Gesammelte Schriften, II e III, 1925. Posso acrescentar aqui que uma análise da Intrdouctory Lectures (1916-1917) levara aos mesmos resultados. (Cf. sobretudo a décima Quarta conferência.) Para uma crítica psicanalítica e o restabelecimento da tese principal de Freud, ver Wisdom, J. O. (1949): 'A Hypothesis to Explain Trauma Re-enactment Dreams', Intern Journal of Psycho-Analysis, 30, pgs. 13 ff. As passagens de Freud que são citadas aqui completam as que eu citei. Compare sobretudo a referência de Wisdom nas pgs. 13-15 (notas 2-8) a Freud, New Introductory Lectures, 1937, pgs. 43-44, onde Freud introduz, para explicar os sonhos de representação de traumas, o conceito de intento de satisfação de desejos: "mas não considerou que com isso", escreve Wisadom na pg. 15, "não dizia nada essencialmente novo". Compare também a referência de Wisdom na pg. 14 (notas 4 e 5) à explicação de Freud dos "sonhos dolorosos" pela satisfação de desejos de castigo, como se indica na Intrdocutory Lectures, 1943, pg. 185 e Beyond the Pleasure Principle, 1922, pg. 38.
  3. Op. cit. Pg. 135 (o itálico é meu).
  4. Loc. Cit.
  5. Op. Cit., pg. 160. A tese principal de Freud está estreitamente relacionada com outra fundamental (cf. pgs. 123 e 133 ff): que é "a função" de um sonho ou, de qualquer modo, sua função "normal", ser guardião do sono contra as perturbações; apesar de que às vezes o sonho também pode Ter que "aparecer no papel de perturbador do sono" (pg. 580).
  6. Op. cit. Pg. 537. O itálico é meu. Compare essa citação com o texto da minha nota 3 supra. No entanto, Freud fala dos sonhos de angústia em termos muito diferentes e menos confiáveis antes dessa passagem; por exemplo, nas pgs. 161 e 236.
  7. Op. cit. Pg. 157. A discussão dos "sonhos desagradáveis" é continuada nas pgs. 556 ff.; ver a citação da minha nota precedente. Certamente, estou disposto a acreditar na hipótese de Freud (pg. 157) de que alguns de seus pacientes satisfaziam, em seus sonhos, o desejo de refutar a teoria de Freud. E no entanto, com essa hipótese nos aproximamos perigosamente de um estratagema convencionalista (cf. Lógica seção 20) como tratarei de argumentar.
  8. Ges. Schriften, II, 1925, pg. 497; correspondente à pg. 580 (as cinco últimas linhas antes do parágrafo a seguir) da edição de Strachey.
  9. Ed. De Strachey, pg. 582; o itálico é meu.
  10. Loc. Cit., nota 2: os itálicos são meus. Um enunciado bastante inequívoco (que entretanto não contém o termo "angústia" mas o de "neutraumática" aparece em seu lugar), com respeito ao fato de que alguns sonhos de angústia não são satisfações de desejos, mas sim "são as únicas exceções autênticas", se encontra na primeira sentença da seção IX do artigo de Freud de 1923; cf. também as quatro últimas páginas do primeiro capítulo do New Introductory Lectures, 1933, especialmente a observação "não levou ao ponto de dizer que a exceção confirma a regra...".
  11. Ges. Schriften, III, pg. 25; correspondente à nota 2, pg. 135 da tradução de Strachey. Ver também as observações sobre "os profanos" na décima Quarta das Introductory Lectures.
  12. Ver também a nota 2 que acabo de citar, pg. 135, e a nota acrescentada em 1925 à pg. 160. Freud diz aqui de seus críticos que "não fazem muito uso de sua consciência moral" (Ges. Schriften, III, pg. 31), sugerindo que são movidos por "inclinações agressivas" quando atribuem a doutrina de que "todos os sonhos têm um conteúdo sexual" à "psicanálise". No entanto, Otto Rank - que, como explica Freud, afirmava precisamente isso - não pertence às filas da "psicanálise" ?
  13. Os "sonhos complacentes" (Gefälligkeitstraüme) ou "sonhos dóceis" - sonhados para agradar o analista confirmando a sua teoria - são descritos e discutidos por Freud no Ges. Schriften, III, pgs. 312-4 (correspondendo a 'Remarks on the Theory and Practice of Dream Interpretation', 1923, seção VII ff., Collected Papers 5, 1950, pgs. 141-5). Ver também a vigésima sétima e a vigésima oitava das Introductory Lectures.
  14. Op. cit. Ges. Schriten, III, pgs. 310-4.
  15. Op. cit. pg. 130.
  16. Op. cit. pg. 311 (Collected Papers 5, pgs. 142).
  17. Op. cit., pg. 314 (Os itálicos são meus. Cf. Collected Papers, pg. 145.) A referência é ao ponto quatro da décima Quinta das Introductory Lectures que proporciona, quando muito, um argumento circular como réplica à última que proporciona um argumento que só mostra que alguns dos princípios mais gerais de análise estão apoiados por evidência independente, de modo que, em seu todo, pode se dever à sugestão (Estou disposto a conceder isso; o que é talvez a evidência mais surpreeendente desse tipo pode encontrar-se na República de Platão, por exemplo, pgs. 571-5. Essas passagens não são mencionadas por Freud. Essas e outras são discutidas na Open Society (nota 59 ao cap. 10). A passagem na conferência vigésima oitava também faz uso do que é essencialmento o argumento dos qubra-cabeças de peças irregulares.
  18. Os sonhos que representam trabalhos sobre problemas são discutidos na Interpretation of Dreams, nota 2 (acrescentada em 1919), na pg. 181, onde Freud se refere a experimentos realizados por Pötzl (ver também pg. 569) Samuel Butler havia previsto alguns dos resultados de Pötzl em uma esplêndida passagem em Erewhon Revisited (1901), caps. 27-8. "Gostaria que alguém escrevesse um livro sobre os sonhos", escreveu Butler no cap. 28, ognorando que Freud havia publicado seu livros dois anos antes.
  19. Essa idéia é tomada da última sentença da seção III de Freud, On Dreams, 1901; Standard Edition 5, pgs. 629 ff.
  20. Ver Butler, loc. Cit., para uma interessante descrição e análise de um sonho de angústia. Uns sonhos de fome - de Shackleton e Wilson - que não se encaixam na teoria de Freud, mas que se encaixam na proposta aqui, são os referidos pelo capitão Scott na The Voyage of Discovery (anotação no diário com data de 22 de Dezembro de 1902): "Meus companheiros têm 'sonhos de comida' muito ruins; chegam a aparecer na conversação normal durante o desjejum. Parecem ser uma espécie de pesadelo; ou estão sentados junto a uma mesa bem servida e têm os braços atados, ou agarram um prato e têm a mão decepada, ou estão a ponto de levar à boca um pedaço excelente quando caem em um precipício. Quaisquer que sejam os detalhes, algo se interpõe no último momento e acordam".
  21. Como outra alternativa à fórmula de Freud de satisfação de desejos, J. O. Wisdom propõe, no artigo a que se refere a nota 2 supra, que os sonhos sejam reelaborados e reinterpretados. Atribuindo muito peso à idéia de Freud dos desejos de castigo (uma idéia da qual o próprio Freud se havia servido muito pouco), Wisdom se propõe a explicar todos os sonhos - inclusivo os de angústia - em termos de satisfação de desejos (o próprio Wisdom prefere o termo "satisfação de necessidades", para que não possa haver um "desejo inconsciente" que corresponda a cada "necessidade" no sentido de Wisdom, incluindo o que ele chama de "necessidades de castigo".) Pode se dizer que a teoria de Wisdom admite conflitos na explicação dos sonhos, mas, pelo que vejo, só admite um tipo de conflito: aquele devido a sentimento de culpabilidade.

terça-feira, novembro 23, 2010

Obra inédita de Jung: Vozes lança O Livro vermelho

 O Livro vermelho



Lançado o tão esperado O Livro vermelho, ou Liber novus, como o chamou Carl Gustav Jung. O criador da psicologia analítica terminou a obra por volta de 1930 e na época optou por não divulgá-la devido ao seu caráter extremamente pessoal. Mesmo depois de sua morte, em 1961, a família de Jung preferiu manter o trabalho oculto. Mas agora, depois de mais de dez anos de negociações e preparo, o livro é apresentado ao público.

Todas as grandes obras da tradição ocidental compõem o universo cultural de Jung e o influenciaram de certa forma. É possível perceber grandes influências na composição de O Livro vermelho: Zaratustra, de Nietzsche, A divina comédia, de Dante, Fausto, de Goethe. Mas o Líber novus é novo e originalíssimo tanto na forma e apresentação quanto no conteúdo. Enquanto Nietzsche apregoou a morte de Deus, uma nova ética, a “transformação de todos os valores”, O Livro vermelho traz a novidade do renascimento da divindade interior, da experiência pessoal pela transcendência das instituições. Enquanto Dante realiza uma viagem interior de aprofundamento, personificando em Virgílio um guia para o mundo dos mortos, Jung tem múltiplos guias, sendo o mago Philemon – aquele que centraliza o conhecimento intuitivo – o maior de todos.


O livro começa em dezembro de 1913, quando Jung tem uma visão enquanto viajava para visitar uma parente, em uma cidade próxima a Zurique: toda a Europa coberta por um mar de sangue, com milhares de cadáveres boiando, do norte até o sul. É uma imagem terrível que se repetiu como se fosse um sonho aterrorizante. Ele relatou os detalhes em seu livro de memórias, assinalando a necessidade premente que sentiu de compreender o sentido. De início, chegou a pensar que estivesse sofrendo de uma grave crise psíquica e que a visão talvez dissesse respeito a uma doença mental iminente. Só quando pouco tempo depois a Europa mergulhou na Primeira Guerra Mundial (1914- 1918) com seus incontáveis mortos e o profundo sofrimento para milhões, ele pôde compreender o sentido antecipatório de sua visão. Ficou claro para ele que as poderosas imagens que se desenrolaram a partir daí em fluxo caudaloso em fantasias e sonhos falavam também de algo interno, uma profunda transformação interior. As mudanças interiores aconteciam paralelamente às dolorosas alterações da estrutura mundial.
Em sua vida particular, Jung atravessava um período de mudanças ricais. Havia rompido com Freud e afastava-se do movimento psicanalítico que se afirmava gradualmente em toda a Europa. Estava quebrando os laços com a Associação Internacional de Psicanálise, instituição da qual fora o primeiro presidente. Aos 38 anos, atravessava então uma típica crise de metade de vida, como ele próprio viria a chamar depois.

A intensa experiência presente em O Livro vermelho pode dar a falsa impressão de que a obra tenha caráter “revelatório” e seja escrita com base em significativas experiências subjetivas, expressas de forma direta. Mas não é o caso. O trabalho sofreu várias revisões, foi escrito em diversas fases, revisto pelo autor ao longo dos anos, mostrado a um círculo íntimo de amigos, aperfeiçoado e bem-acabado em sua apresentação e conteúdo. O curioso é que a obra completa de Jung em 19 volumes tem alguns textos que são realmente do tipo revelatório, escritos após inspiração súbita. Tal é o caso, por exemplo, de Resposta a Jó. Segundo a seguidora de Jung, Marie-Louise von Franz, o livro foi escrito de uma só vez, de forma fortemente inspiracional”. Durante a produção, o autor teria apresentado alteração de temperatura corporal.


Em O Livro vermelho, entretanto, embora partindo de intensas experiências de sonho e fantasia, os diversos capítulos sofrem depois um processo de elaboração racional e aperfeiçoamento, uma tentativa de elaboração e integração da experiência do inconsciente aos processos mentais conscientes. Poderíamos dizer que o livro é um constante oscilar entre os dois tipos de pensamento: o onírico e o mitológico (do inconsciente) e o racional (típico da consciência). A experiência intuitiva criativa aparece em forma de personagens e histórias. Esses processos intuitivos são, em um segundo momento, elaborados pela mente racional consciente em busca de um sentido simbólico que sintetize ambas as formas de pensar.


Tomemos, por exemplo, entre as inúmeras cenas do livro o encontro de Jung com o herói mitológico Izdubar. O psiquiatra suíço caminha em uma de suas fantasias em direção ao Oriente, por um longo trajeto que parece não ter fim. A paisagem tem horizontes que se perdem na distância. Subitamente, aparece ao longe um vulto enorme, de proporções gigantescas. Jung sente um profundo temor e respeito pela figura primitiva, semelhante a um herói antigo, com vestes típicas das sociedades tribais. Indagado sobre quem é, o herói diz ser Izdubar, o poderoso, e que se dirige ao Ocidente para conhecer os países da terra longínqua e seus habitantes. Jung diz que vem do Ocidente, fala das pessoas, suas cidades e sua capacidade de se deslocar em máquinas voadoras para terras distantes. A partir daí se desdobra um diálogo entre Izdubar, um ser cheio de crenças, temente ao poder do mito e da magia, e Jung, possuidor do pensamento racional e científico.
Izdubar é tomado pelo medo do poder da razão, torna-se extremamente fraco e teme morrer, aniquilado pela racionalidade do ser de estatura diminuta. Já Jung teme pela morte iminente de Izdubar. O que se passa a seguir é comovente: para salvar o interlocutor, o psiquiatra entoa encantamentos védicos da antiga Índia, palavras mágicas de restituição de vigor. O herói da mitologia se torna então diminuto e, surpreendentemente, é guardado por Jung em um ovo. Depois de certo tempo é restaurado ao seu tamanho natural, a salvo e revigorado.


Temos aqui não a morte de Deus anunciada por Nietzsche, mas a assimilação dos deuses antigos e seu renascer sob nova forma simbólica de experiência psicológica subjetiva. Jung anunciaria muito mais tarde, nos anos 30, que os deuses clássicos não morreram, mas, recalcados, reapareceriam em forma de doença, causando os mais curiosos fenômenos apresentados pelos pacientes.


A quase morte do deus e sua restauração em forma simbólica, um processo de integração do pensamento mitológico do inconsciente pela razão onisciente, é de uma sutileza tão grande e uma profundidade tão difícil de expressar que Jung julga as palavras insuficientes para transmitir o que ocorre. Por isso, recorre nessa parte do livro ao recurso da linguagem não verbal de poderosas pinturas coloridas, imagens de grande densidade de significado: mandalas, cores e os mais diversos símbolos. Um Jung surpreendente – o artista plástico – revela-se aqui em pinturas de grande beleza estética e densidade de significado.
Esse modelo de comunicação, o uso de metáforas poderosas aliadas a ilustrações igualmente significativas, é absolutamente pessoal e revolucionário. Se desde Anna O. temos anunciado que a psicoterapia é “uma cura pela fala”, temos aqui constatado, nos inícios da elaboração da escola junguiana, que a psicoterapia também é “uma cura pela não fala”, pelas técnicas expressivas diversas, não verbais.


Outro aspecto do maior interesse é o nome do deus: Izdubar. Tratase do antigo nome, depois corrigido, do herói sumeriano Gilgamesh, personagem do antiquíssimo mito Gilgamesh, rei de Uruk. Jung teve conhecimento, e não há dúvida disso, de que o nome histórico Izdubar havia sido corrigido para Gilgamesh em textos anteriores ao O Livro vermelho. Por que manteve a palavra Izdubar? Porque foi sob esse nome que a entidade mitológica se revelou a ele – e isso demonstra que as diversas figuras históricas, bíblicas e mitológicas que povoam sua obra não são os personagens que conhecemos dos livros clássicos e da Bíblia, mas experiências internas de Jung personificadas.


Ainda é cedo para tentar prever todo o efeito que O Livro Vermelho terá sobre a avaliação e o conhecimento das ideias do criador da psicologia analítica. Mas conhecendo-o agora, um século depois de ter sido iniciado, deve-se lamentar ele não ter sido antes revelado aos estudiosos junguianos e ao público em geral. Toda a avaliação da obra do autor será feita de nova forma, de outra perspectiva para entender a extensa realização daquele que foi, ao lado de Freud, um dos principais criadores da psicologia moderna.


Nota:


Oculto por 70 anos, livro traz ilustrações e manuscritos do autor; os textos servem de base para os trabalhos do criador da psicologia analítica


A obra impressiona. Chamado de “o grande livro” devido ao formato – 30 cm x 40 cm, com 10,5 cm de lombada e capa dura, obviamente vermelha –, levou 16 anos para ser finalizado e deu base aos escritos de C. G. Jung. Os manuscritos ilustrados constituem um belo trabalho artístico ligado ao universo inconsciente e à psicologia arquetípica. Nas 404 páginas do miolo, o leitor encontra um caderno iconográfico com imagens do manuscrito original, reproduções e pinturas feitas pelo próprio autor. A edição brasileira é rigorosamente fiel ao projeto original.

 
O LIVRO VERMELHO
Liber Novus
C. G. Jung

Edição e Introdução
Sonu Shamdasani
Formato Gigante
|
30 x 40 cm
Capa Dura
| com Sobrecapa
Lombada de 5 cm | 404 páginas
R$ 480,00


"Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores constituíram a época mais importante da minha vida. Neles todas as coisas essenciais se decidiram. Foi então que tudo teve início, e os detalhes posteriores foram apenas complementos e elucidações. Toda minha atividade ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles anos e que inicialmente me inundara: era a matéria-prima para a obra de uma vida inteira." - C.G. JUNG, 1957

Durante a Primeira Guerra Mundial, C.G. Jung embarcou numa ampla autoexploração que chamou de seu “confronto com o inconsciente”. No centro desta exploração estava o Livro Vermelho, um grande livro em iluminuras que ele elaborou entre 1914 e 1930, contendo o núcleo de suas obras posteriores. Foi nesta obra que ele desenvolveu suas principais teorias dos arquétipos do inconsciente coletivo e do processo de individuação, que iriam transformar a psicoterapia de uma prática ocupada com o tratamento dos doentes num instrumento para o desenvolvimento ulterior da personalidade.

Embora Jung considerasse o Livro Vermelho sua obra mais importante, só um punhado de pessoas o viu alguma vez. Talvez seja a mais influente obra inédita na história da psicologia. Agora, numa reprodução completa em fac-símiles e tradução, editada por Sonu Shamdasani e com introdução do mesmo, a obra está disponível aos estudiosos e ao público em geral. É um maravilhoso volume de caligrafia e arte, que sugere influências tão diversas como a Pérsia e os Impérios Maias - uma obra igualável a manuscritos com iluminuras como o Book of Kells e os de William Blake. A publicação do Livro Vermelho é um divisor de águas que iniciará uma nova era nos estudos junguianos.

Sonu Shamdasani, eminente historiador de Jung, ministra cursos sobre História de Jung no Wellcome Trust Center for the History of Medicine, no University College London.

terça-feira, novembro 02, 2010

O valor da vida
(Uma entrevista rara de Freud)

 
Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud está essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Future, número especial do "Journal of Psychology", de Nova Iorque, em 1957. É esse texto que aqui reproduzimos, provavelmente pela primeira vez em português.
[TRADUÇÃO DE PAULO CÉSAR SOUZA]
 
     Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.
     Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos.
     Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou.
     Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação.
     - Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção. Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.
     Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.
     - Por quê - disse calmamente- deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com suas agruras, chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?
     -  O senhor teve a fama. Sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenageá-lo - com exceção da sua própria Universidade.
     - Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais.
     A fama chega apenas quando morremos e, francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não é virtude.
     -  Não significa nada o fato de que o seu nome vai viver?
 

De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu.

 
     - Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não é certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não venham a ser difíceis. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liqüidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.
     Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia.
     - Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.
     - Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?
     - Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.
     - Osenhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?
     - Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem constituir uma exceção?
     - Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?
     - Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida; movendo-se num círculo, seria ainda a mesma.
     Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro.
     Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.
     - Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco, disse eu. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.
     - É possível, respondeu Freud,  que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer.
             Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição.  

O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós. A morte é a companheira do amor. Juntos eles reagem o mundo.

 
     Do mesmo modo como um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós.
     A Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o meu livro Além do Princípio do Prazer.
     No começo, a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante.
     Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da "febre chamada viver", anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção.
 

Biologicamente, todo ser vivo anseia pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”, anseia pelo seio de Abrão.

 
     - Isto, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hartamann.
     - A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte.
     Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por seu aliado dentro de nós.
     Neste sentido, acrescentou Freud com um sorriso, pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio disfarçado.
     
       Estava ficando frio no jardim.
       Prosseguimos a conversa no gabinete.
       Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud.
     - Em que o senhor está trabalhando?
     - Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopolizá-la.
     - O senhor teve muito apoio dos leigos?
     - Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.
     - O senhor está praticando muito a psicanálise?
     - Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente.
     - Minha filha também é psicanalista, como você vê...
     Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud, acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxônicas.
 

A psicanálise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que devemos evitar.

 
     - O senhor já analisou a si mesmo?
     - Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros.
     O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.

     - Minha impressão é de que a psicanálise desperta em todos que a praticam o espírito da caridade cristã. Nada existe na vida humana que a psicanálise não possa nos fazer compreender. "Tout comprec'est tout pardonner".
     - Pelo contrário! - bravejou Freud,  suas feições assumindo a severidade de um profeta hebreu. Compreender tudo não é perdoar tudo. A análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância para com o mal não é de maneira alguma um corolário do conhecimento.
     Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, porque ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus ancestrais. Uma herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça.
     - Minha língua é o alemão. Minha cultura, minha realização é alemã. Eu me considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na Áustria. Desdeentão prefiro me considerar judeu.
     Fiquei algo desapontado com esta observação.
     Parecia-me que o espírito de Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raça, que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava-o mais atraente como ser humano.
     Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar!
     - Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal!
     - Nossos complexos são a fonte de nossa fraqueza; mas, com freqüência, são também a fonte de nossa força.
     - Imagino, observei, quais seriam os meus complexos!
     - Uma análise séria dura ao menos um ano. Pode durar mesmo dois ou três anos. Você está dedicando muitos anos de sua vida à "caça aos leões". Você procurou sempre as pessoas de destaque para a sua geração: Roosevelt, o Imperador, Hindenburg, Briand, Foch, Joffre, Georg Brandes , Gerhart Hauptamann e George Bernard Shaw...
     - É parte do meu trabalho.
     - Mas é também sua preferência. O grande homem é um símbolo. A sua busca é a busca do seu coração. Você está procurando o grande homem para tomar o lugar do seu pai. É parte do seu "complexo do pai".
 

Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal.

 
     Neguei veementemente a afirmação de Freud. No entanto, refletindo sobre isso, parece-me que pode haver uma verdade, ainda não suspeitada por mim, em sua sugestão casual. Pode ser o mesmo impulso que me levou a ele.
  
     - Gostaria, observei após um momento, de poder ficar aqui o bastante para vislumbrar o meu coração através do seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de pavor ao ver minha própria imagem! Entretanto, receio ser muito informando sobre a psicanálise. Eu freqüentemente anteciparia, ou tentaria antecipar suas intenções.
     - A inteligência num paciente não é um empecilho. Pelo contrário, às vezes facilita o trabalho.
     Neste ponto o mestre da psicanálise diverge de muitos dos seus seguidores,
 

Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana, porque são muito mais simples.

 
que não gostam de excessiva segurança do paciente sob o seu escrutínio.
     - Ás vezes imagino, questionei, se não seríamos mais felizes se soubéssemos menos dos processos que dão forma a nossos pensamentos e emoções. A psicanálise rouba a vida do seu último encanto, ao relacionar cada sentimento ao seu original grupo de complexos. Não nos tornamos mais alegres descobrindo que nós todos abrigamos o criminoso e o animal.

     - Que objeção pode haver contra os animais? Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.
     - Por que?
     - Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico.
     O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.
     Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão, acrescentou Freud pensativamente, lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis antigos como Aquiles e Heitor.
     - Meu cachorro, disse eu, é um Doberman Pinscher chamado Ajax.
     Freud sorriu.
     -  Fico contente de que não possa ler. Ele certamente seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opinião sobre os traumas psíquicos e o complexo de Édipo!
 

O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade.

 
     - Mesmo o senhor, Professor, sonha a existência complexa demais. No entanto, parece-me que o senhor seja em parte responsável pelas complexidades da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, não sabíamos que nossa personalidade é dominada por uma hoste beligerante de complexos muito questionáveis. A psicanálise fez da vida um quebra-cabeças complicado.
     - De maneira alguma, respondeu Freud. A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa fora do labirinto do seu inconsciente.
     - Ao menos na superfície, porém, a vida humana nunca foi mais complexa. E a cada dia alguma nova idéia proposta pelo senhor ou por seus discípulos torna o problema da condução humana mais intrigante e mais contraditório.
     - A psicanálise, pelo menos, jamais fecha a porta a uma nova verdade.
     - Alguns dos seus discípulos, mais ortodoxos do que o senhor, apegam-se a cada pronunciamento que sai da sua boca.
     - A vida muda. A psicanálise também muda, observou Freud. Estava apenas no começo de uma nova ciência.
     - A estrutura científica que o senhor ergueu me parece ser muito elaborada. Seus fundamentos - a teoria do "deslocamento", da "sexualidade infantil", do "simbolismo dos sonhos", etc. - parecem permanentes.
     - Eu repito, porém, que nós estamos apenas no início. Eu sou apenas um iniciador. Consegui desencavar monumentos soterrados nos substratos da mente. Mas ali onde eu descobri alguns templos, outros poderão descobrir continentes.
     - O senhor ainda coloca a ênfase sobretudo no sexo?
     - Respondo com as palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman: "Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo" ("Yet all were lacking, if sex were lacking"). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual naquilo que está "além" do prazer - a morte, a negociação da vida.
 

As emoções do cão lembram-nos os heróis da antiguidade. Talvez por essa razão, inconscientemente damos a nossos cães nomes de heróis antigos.


     Este desejo explica por que alguns homens amam a dor - como um passo para o aniquilamento! Explica por que todos buscam o descanso, porque os poetas agradecem a
                         Whatever gods there be,
                         That no life lives forever
                         That dead men rise up never
                          And even the weariest river
                         Winds somewhere safe to sea.
     ("Quaisquer deuses que existam/ Que a vida nenhuma viva para sempre/ Que os mortos jamais se levantem/ E também o rio mais cansado/ Deságüe tranqüilo no mar".)
     - Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre, mas à diferença do senhor, ele considera o sexo desinteressante.
     - Shaw, respondeu Freud sorrindo,  não compreende o sexo. Ele não tem a mais remota concepção do amor. Não há um verdadeiro caso amoroso em nenhuma de suas peças. Ele faz brincadeira do amor de Júlio César - talvez a maior paixão da História. Deliberadamente, talvez maliciosamente, ele despe Cleópatra de toda grandeza, reduzindo-a uma insignificante garota.
     A razão para a estranha atitude de Shaw diante do amor, para a sua negação do móvel de todas as coisas humanas, que tira de suas peças o apelo universal, apesar do seu enorme alcance intelectual, é inerente à sua psicologia. Em um de seus prefácios, ele mesmo enfatiza o traço ascético do seu temperamento.
     Eu posso ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que não errei ao enfatizar a importância do instinto sexual. Por ser tão forte, ele se choca sempre com as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em uma espécie de autodefesa, procura negar sua importância.
 

Consegui desencavar monumentos soterrados nos substratos da mente.
Mas ali onde eu descobri alguns templos, outros poderão descobrir continentes.

 
     Se você arranhar um russo, diz o provérbio, aparece o tártaro sob a pele. Analise qualquer emoção humana, não importa quão distante esteja da esfera da sexualidade, e você certamente encontrará esse impulso primordial, ao qual a própria vida deve a perpetuação.
     - O senhor, sem dúvida, foi bem sucedido em transmitir esse ponto de vista aos escritores modernos. A psicanálise deu novas intensidades à literatura.
     - Também recebeu muito da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. É surpreendente até que ponto a sua intuição prenuncia as novas descobertas. Ninguém se apercebeu mais profundamente dos motivos duais da conduta humana, e da insistência do princípio do prazer em predominar indefinidamente. O de Zaratustra diz:
"A dor
Grita: Vai!
Mas o prazer quer eternidade
Pura, profundamente eternidade".
     A psicanálise pode ser menos amplamente discutida na Áustria e na Alemanha do que nos Estados Unidos, a sua influência na literatura é imensa, porém.
     Thomas Mann e Hugo von Hofmannsthak muito devem a nós. Schnitzler percorre uma via que é, em larga medida, paralela ao meu próprio desenvolvimento. Ele expressa poeticamente o que eu tento comunicar cientificamente. Mas o Dr. Schnitzler não é apenas um poeta, é também um cientista.
     - O senhor, repliquei,  não é apenas um cientista, mas também um poeta. A literatura americana está impregnada da psicanálise. Hupert Hughes, Harvrey O'Higgins e outros fazem-se de seus intérpretes. É quase impossível abrir um novo romance sem encontrar referência à psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene O'Neill e Sydney Howard têm profunda dívida para com o senhor. The Silver Cord, por exemplo, é simplesmente uma dramatização do complexo de Édipo.
     - Eu sei, replicou Freud,  e aprecio o cumprimento que há nessa constatação. Mas tenho receio da minha popularidade nos Estados Unidos. O interesse americano pela psicanálise não se aprofunda. A popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise porque brincam com seu jargão! Eu prefiro a ocupação intensa com a psicanálise, tal como ocorre nos centros europeus.
     A América foi o primeiro país a reconhecer-me oficialmente. A Clark University concedeu-me um diploma honorário quando eu ainda era ignorado na Europa. Entretanto, a América fez poucas contribuições originais à psicanálise. Os americanos são divulgadores inteligentes, raramente são pensadores criativos. Os médicos nos Estados Unidos, e ocasionalmente também na Europa, procuram monopolizar para si a psicanálise. Mas seria um perigo para a psicanálise deixá-la exclusivamente nas mãos dos médicos, pois uma formação estritamente médica é, com freqüência, um empecilho para o psicanalista. É sempre um empecilho, quando certas concepções científicas tradicionais ficam arraigadas no cérebro do estudioso.

 

Posso ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que não errei ao enfatizar a importância do instinto sexual.

 
     Freud tem que dizer a verdade a qualquer preço! Ele não pode obrigar a si mesmo a agradar a América, onde está a maioria de seus admiradores.
     Apesar da sua intransigente integridade, Freud é a urbanidade em pessoa. Ele ouve pacientemente cada intervenção, não procurando jamais intimidar o entrevistador.Raro é o visitante que deixa sua presença sem algum presente, algum sinal de hospitalidade!
Havia escurecido.
     Era tempo de eu tomar o trem de volta à cidade que uma vez abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos.
     Acompanhado da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levavam do seu refúgio na montanha à rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e triste, ao dar o seu adeus.

     - Não me faça parecer um pessimista, ele disse após o aperto de mão. Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não, enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz - ao menos não mais infeliz que os outros.
     O apito de meu trem soou na noite. O automóvel me conduzia rapidamente para a estação. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram na distância.

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